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Precisamos mesmo de heróis?

dezembro 23, 2013

Cazuza cantou que seus heróis morreram de overdose. Ali, o garoto que não conheceu as regras e morreu por causa disso, deixava uma verdade no ar, mesmo sem necessariamente saber o que dizia. Fato é, que não temos heróis na essência da palavra, ou perdemos a exata noção do conceito de herói. Digo bobagem?
Macunaíma é o protótipo do herói brasileiro. Malandro, hedonista, safado, preguiçoso e esperto. Adepto e praticante da lei de Gerson, pronto a levar vantagem sobre a própria sombra. Há quase cem anos Mário de Andrade já sabia disso, ao criar o personagem. E se algo mudou em todo esse tempo, mudou para pior.
Nossos heróis são trambiqueiros, gambiarreiros, catireiros, mas não admitimos que os outros errem conosco. Não suportamos a falta de ética do governo e das autoridades, como se eles fossem uma classe diferente de gente, distante de nós e obrigados a nunca falhar. Elegemos gente de passado sombrio e esperamos futuro brilhante.
Mas a culpa não é nossa. Somos vítimas dos heróis de ontem, que não nos ensinaram a nos defender deles mesmos e de seus sucessores. Assim, cada um que se ergue em defesa de algum interesse que agrade a mais de cem pessoas, já está apto a se candidatar ao cargo de herói do Brasil. E não importa mesmo o que ele já tenha feito, o que esteja propondo ou o que vá realizar.
Nossa carência de heróis é tão grande, que tomamos por defensor qualquer imbecil que saiba cantar, jogar futebol, ou se saia bem no púlpito de uma igreja. Sua ficha, sua formação e seu conhecimento é o menos importante. Basta que brilhe onde está, que o colocamos onde não deve. E depois, fazemos piada, lastimamos e culpamos alguém pela má escolha, menos a nós mesmos.
O que nos absolve de receber sozinhos o título de idiotas é o fato de que em todos os tempos, todos os povos construíram heróis e sempre buscaram enaltecer características que, se levadas a uma analise crítica sem restrições, vai nos mostrar que boa parte dos mitos, se não todos, enaltece homens de caráter moralmente reprovável.
Os heróis da Bíblia, por exemplo, em sua maioria, são homens de procedimento inadequado e de uma ética duvidosa, de práticas moralmente condenáveis, como Abraão, chamado o pai da fé, mas que duvidou da providência divina e depois abandonou o filho e a concubina à sorte no deserto; Jacó, mentiroso e enganador, usurpador do direito do irmão, herda a astúcia de seu pai Isaac e seu tio Labão, família de trambiqueiros; Moisés, assassino violento e descontrolado, a ponto de não poder ver a “terra prometida”, pela qual lutou a vida inteira; Davi, sanguinário indigno de erguer templo ao Santo dos Santos, manda para a morte seu mais fiel servo, para lhe tomar a mulher; Sansão, homicida contumaz, que desobedece aos pais, trai seu juramento e leva toda sua tribo à desgraça por, de forma infantil, confiar e se entregar a uma mulher inimiga.
Mas esses mesmos mortais cheios de falhas mais que evidentes nos foram dados como modelos de heróis e aprendemos a relevar seus deslizes. Assim, nos perdoamos pelo mal que faremos, como apregoa Paulo de Tarso, o grande disseminador do cristianismo ao mundo: O mal que não desejo faço-o sempre. Já o bem que desejo, quase nunca o faço.

Então fica a dúvida: Precisamos mesmo de heróis, ou devíamos, cada um de nós, sabedores de nossa natureza que tende ao socialmente indesejável, exercitarmos a vigilância sobre nossos instintos e produzirmos por nós e em nós uma sociedade mais equilibrada? Não deveríamos ser todos heróis de batalhas diárias contra nossos desejos individuais em favor do bem coletivo?

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